24
de
julho
Uma arte poética comparativa
Após voltar de um concerto de ‘heavy-metal’, num sábado em que o frio seco lembrava o gosto de um vinho sem gosto, que a imaginação trata de dar um sabor olfativo e sinestésico, escrevo, num raro momento de retorno literário-real da existência cotidiana.
Amanhã, começam as aulas, talvez trabalhe; talvez tenha meu diploma filosófico desdenhado pelas secretárias e coordenadoras, que controlam o “habitat do saber” do Brasil. Na sala dos professores, discute-se a condição da protagonista da novela, a liquidação de alguma loja com o nome de uma mulher. No concerto de ‘metal’, que é o minério europeu importado para a terra de Adoniran Barbosa, há o teatro do absurdo, de uma peça de Beckett, em que os personagens procuram “Godot”: o Deus, o sentido da vida; muita repetição de acorde, pouca criatividade; “muito barulho por nada”. Eu gosto de heavy-metal, mas o público deste estilo se comporta de forma, evidentemente, escapista da realidade social;
Arte não pode ser moldada, o estilo de um bom artista é seu D.N.A.
Como o D.N.A de Adoniran, como é lindo um verso como esse: ” De tanto levar ‘frechada’ do seu olhar, meu peito até parece, sabe o quê? - ‘Taubua’ de tiro ao ‘Álvaro… Não tem mais onde furar”.
O futuro imaginado há alguns anos não foi esse; e existe uma força natural para o conformismo e adaptação em nós, até que nos vejamos dentro do Processo que torna possível a vida como ela é.
Tento lembrar dos versos de Brecht, ” Estranhem o que não for estranho, sintam-se perplexos diante do cotidiano!” Ou seja, é a visão de que quando perdemos o estranhamento das coisas é porque já estamos corrompidos, perdemos a visão crítica do mundo, e nos esqueceremos de que tudo que se passa, é planejado pelas instituições, pelo poder. Tudo pode se servir de alienação neste jogo intelectual de dominar pessoas; na direção contrária a isso, perceber a arte que tem D.N.A, encontrar beleza nas palavras, uma boa conversa, não são mensuráveis, isso não tem comparação.

